sábado, 26 de dezembro de 2009

SEUS OLHOS CLAROS

Para uns olhos claros

Seus olhos claros
Me perturba
Mas encanta.
Que se esconde por detrás deles?
Qual segredo? Mística? Nomes?
Qual história que eu quero conhecer?
Por que se esconde?

Seus olhos claros
Me espanta
E enlouquece
Será que é paixão que há aquém deles?
Que me amedronta? Instiga? Invento?
Que tanto fujo e mais perto sigo?
Para onde estais.

Se seus olhos claros fitarem os meus
Nas luzes das horas,
No silêncio das paisagens,
No movimento das imensidades,
E eu puder ver além dos seus olhos, e você aquém
onde eu sou,
então poderei supor que há paixão!

Então, seus olhos claros
Me remontarão
E nos completaremos.
Que seremos de nós e o mundo?
Qual futuro? Sonhos? Encantos?
Se lhe encontrar sobre o que eu planto?
E você nascer!

então a paixão é mesmo a mais linda delicadeza de Deus...

domingo, 20 de dezembro de 2009

SOBRE A BELEZA DE ANA

sobre a beleza de ana. mesmo com tanto a dizer, não diria. fecharia os olhos e sonharia. já que a beleza se comunica por telepatia, um beijo na mão (de longe) é mais que uma carícia, é mágica. amiga. mãe e filha. paninho de criança que brinca, com expressão de anciã. mistica de homeopatia. cheia de deus. ana é bela como deus. very important people for me. é sim. é a incógnita de tudo o que se tem a dizer, e no entanto, só a pre-sença. ser na essência. sapiência. mas eu teimo em falar de ana pois as minhas palavras não estão na ordem dos significados, mas do sentido, do apercebido. ana é dessas pessoas que não se pode definir, só prestar atenção no que se sente quando está com ela. uma menina beatnik, mas com tamanha meiguisse que assusta. inteligente, cuja "pre-sença", angustia a gente e nos faz voltar para a beleza do mundo... para um doce etílico sacro de tão puro!! ana é assim, capaz de com o olhar transformar tudo em pureza, pureza cruel e doce!... enigmática, simples, existente, e apesar de tudo, linda! com uma lindeza encantadora de criança, velha, mulher, e, no entanto, serena... como um lago ao findar do dia. é belo ver ana todo dia, e se deixar ser melhor em sua companhia.

TRANSICIONAL

(outro poema winnicottiano,
para Ana Cristina)



Onde sou eu e onde és tu
Onde nasce o norte e finda o sul?
Onde esconde a vida e mostra a face
Onde a face mostra a vida escondida?


____ Cadê mimi?
____ Foi lavar!
____ Quero mimi!
____ Deixe isso pra lá, olha só o carrinho que eu comprei...
____ Quero mimi....

Onde sou eu e onde és tu
Onde nasce o norte e finda o sul?
Onde esconde a vida e mostra a face
Onde a face mostra a vida escondida?

METÁSTASE (Serenade philosophiques)



isso que se chama homem, sujeito, pessoa, ser, não existe. como não mesmo existo, ou existe coisa alguma. essencialmente somos fadados à inexistência, mas preferimos a ignorância! eu sou o Outro, mas o outro só existe por mim. minha palavra não é minha, nem minha luz, minha idéia e, no entanto, sou dono de mim. os lingüistas já sabiam disso e nos tardaram a nos contar. os psicanalistas também. sou travessão. travesseiro. (trans)versão e a transgressão do sentido da letra que me parte ao meio e me engana. minha identidade. meu caro freud, meu pobre pecheux! sou metástase do Outro e todavia eu mesmo. minha voz é de quem me cria - todos os vazios (trans)bordantes. sou metástase da voz, da letra e do sentido. sou metástase do sonho não vivido, sou metástase do Outro que jaz inscrito den´de mim. oh. deus, que será de ti se eu morrer?*

*De Rilke

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Faz de conta
que tudo era bonito
o riso, o mito, o escândalo,
e em cada canto desse imenso infinito
havia o sonho.

Faz de conta
que amar não é bobeira
na sexta, terça ou quarta feira.
Faz de conta
que o meu desejo
fosse real, deveres em desencanto.

Faz de conta como um mundo de criança
que dança, canta e às vezes chora
mas nunca deixa de fazer de conta
mesmo que nada (ou tudo)
for desamor

Faz de conta
que você me ama
e que eu te amo também
e o mundo em paz.

MEU DESEJO

Meu desejo me bate
Oco
Me invade como um
Soco
Me fere e eu viro
Louco

Meu desejo me revive e
Morro
Entontece meu grito
Rouco
Angustia meu sonho
Porco

Meu desejo me vigia
Santo
E me alegra mesmo que
Pouco
Mas se esconde por detrás do
Corpo

Meu desejo te mira
te persegue, te venera
só pra eu ter-te,
num instante, misérrimo intente, mas
Corro.

YABÁ




(poema winnicottiano)




Meu Deus não é homem, nem mora nos céus
Meu deus é doce, puro, mulher/que encontro quando passeio no mar
Na relva e também na parabólica.
Ela me dá colo, tão doce, é mãe
E me nina quando tenho vontade de chorar.
Não fala nada
Dança suave, ó doce mãe
E me ensina a me cativar
A caminhar.
Meu Deus é feminino
Mulher mãe Maria Janaína
Alvorada Nova e ela é preta
Africana cuja bondade é do tamanho da tristeza.
Minha mãe é rainha
Me firma os passos, segura a minha mão
Farol seguro a minha visão.
Minha mãe é sereia
Deusa dos seios chorosos
Areia que sou
Diante dela
Tudo é luz, cântico, magia.
Deusa da minha vida.
Rainha.

LORENA

Os ipês
da Peixoto de Castro
Os seus paralelepípedos
que me acordam.

As meninas
da Peixoto de Castro!

O meu caminho
do saber.
Quanta linha tem
um caderno de poesia?
de música de geografia.
Quanta linha tem
um caderno de Psicologia?
Pessoa está farto de semi-deuses.
Eu, que nem conheço deuses,
estou farto de mim mesmo,
da minha
paciência em suportar-lhes
quando suportar-me se torna pesado.

Ó Freud
quem mandou descobrir o inconsciente
e me dizer?
Nem posso mesmo culpa-los
por não fazê-los, suas sandices
conscientemente.

Só eu, consciente da inconsciência
de todos que me cercam.
Inconsciente da consciência
da minha própria inconsciência.
MetaFÍSICA
METAlúrgica




Toda metafísica é metalúrgica!

LUTO

Minha poesia está de luto!

De luto pelos que morreram sem estarem vivos,
e pelos que, vivos, não puderam morrer.

Pelos 11 de setembros
Mortos do Afeganistão, mortos do meu sertão,
De fome, sede, de letras e amor,
e pelos desaparecidos da ditadura.

Minha poesia está de luto pela morte da lua.
Pelas sondas estelares como supositórios a me doer.
Pelas crianças que pelas ruas não podem mais correr.
Está de luto pela delicadeza que se foi.
Pela beleza que se foi.

Quero uma poesia militante, humilhante, delirante.
Futurista do original de toda tradição,
No aqui afora do impossível de cada instante.

Mas minha poesia está de luto.
E carrega no braço esquerdo uma faixa preta,
Mas na mão direita uma folha branca...

E vai, cheia de delicadeza.

INVEJA

Tenho inveja de loucos, putas e crianças.
Inveja tão louca e tão intensa
Que não contenta
Com o próprio pecado
E inventa
Uma outra luz.

Tenho-os inveja
Porque são os únicos capazes
De numa mesma imensidade
Fazerem o que quiserem
Da forma como quiserem
No momento em que quiserem
E serem felizes.
Por que são o que são
Com a mesma exatidão
Que não tenho a mim.

Sem culpa, nem mágoa que fira
Sem alegria comprada nas filas
Sem diretrizes e bases
Que fazem a nós outros
Ter inveja.


“Bem aventurados os loucos, as putas e as crianças,
que encontrarão a paz”.
VOCÊ NA LUTA

EU NO LUTO

AS COISAS

As coisas
Não são só coisas.
Há algo nelas
Que se esconde por detrás de suas sombras.
Ou são escondidas pela incerteza
Tudo-nada neste corre-corre
Que não há encontro.
Nas coisas
Há algo mais
Que só é vista
Quando os olhos fitam sem querer ver
E vêem quando não há o que.
A transcendência dos sentidos
Que a elas, de si, a nós
Buscamos compreender
Quando angústia.

O CHORO

O choro
É oco
Quando
Não mostra
O outro
Que esconde
Detrás
Do choro

O choro
É cheio
Quando
Transforma
O outro
Esquivo
Num espelho
Do mesmo.

O choro
É oco.
O choro
É cheio.
Só eu no meio
- sou eu quem choro
Ou sou o espelho?

SONETO A UM AMOR QUE SE SEPAROU SEM ACABAR

Pior que o amor que acaba pra um, e outro não
Como fogo que se apaga, mas ´inda resta a cinza
É o amor que se separa, quando há ele ainda
Puro, mas ferido em cada coração.

Pior que o desamor quando outrora luz
- única possibilidade de se ver a si,
É viver no escuro da imensidão do fim
Incontinenti e solitário como na cruz.

Os amores não podem se separar nunca
Nem se afugentarem à distância das mãos,
Pois inebriados de uma total escuridão

Sofre um, de um lado, nulo e calado
E n´outro, o outro, num chorar inconformado.
Os dois enlutados de saudade, mas desilusão.

LÍBIDO

Antes o mundo era só mundo
Até que Eva viu a serpente
E pendurou no pescoço de Adão.

Antes o mundo era só mundo
Até que Eva comeu a maçã
E nos continua fazer a digestão.

&ão £etos, £otos, £ilmes
&ão Netos, NATAS
&ão MOTOS, motes, noites frias


É calor,


CALES, NÃO RESPIRAS!

SECRETO

Cantar-lhe-ei mil versos
Sem nenhuma dor
E implorarei desejos
Com todo e nenhum pudor,
Mas calculei seus olhos
Pra refratar em sonhos
Você nem sequer sonhou.

Fazia-se corpo-todo-sonso
Mas era criança entre o sono e o sonho
Fizera-me medonho
Amigo doce imigo aos olhos
E nem sequer me olhou.

Dar-lhe-ei mil versos
Do mundo o verso e o reverso
Anverso do mundo eu lhe dou...
Mas quando caio em mim
Faz-me ver só desejo
E quando precisava tanto um beijo
Você me beijou.
Só-mente um beijo assim esquisito
Tudo entre o mito e o imito
Longe dos pais e amor.

TRILHAS ESPETACULOSAS

Deixemo-nos sonhar
Se é ilusão que nos rouba
A coragem de amar,
Pra quê viver dela então?
Desiludamo-nos
Crendo que se possa amar mesmo assim...

Deixemo-nos viver
Se muitos vieram e se foram
E se foram como vieram,
Por que deixa-los nos consumir
Com tristeza?
Por que deixarmo-nos viver essa tristeza?

São poemas falsos
Palavras insinceras
Que nos teimam em dizer não.
Miríades de pranto
Consolidando a solidão
De ter tanta gente em volta
E não ter ninguém.

Deixemo-nos amar
Quando os olhos que se nos atravessam
Formarem trilhas espetaculosas
E se findarem num espelho
Olhemo-nos – a alma
E amemo-nos sós.
“que de mim, sim! Vi que era o pior
Dos companheiros que podia ter:
O mais capaz de me inspirar terror;
O mais difícil de fixar e entender.”
José Régio (Poema do amor sem fé e esperança.
As encruzilhadas de Deus, 6° ed. 1970)

Ai Deus – qual Deus?
Que me possa inspirar terror
Ou amor
Que me possa levar a dor
Mas assim me tiraria toda cor
E o sabor
Da vida

Ai Deus – qual Deus
Que me possa devolver o ser
Será morrer
Ou mera expressão do sofrer
Flor cálida e esquálida do viver
Sobreviver
Sobre o viver.

Ressuscita-me agora
Nesta vida, neste corpo, nesta avenida
Faz-me renascer agora
Nas reentrâncias da loucura morrer
Pra renascer nas reentrâncias do ser.

Mesmo corpo, mesma dor, mesmo tempo
Mesmo espaço, lado e família
Mesma noite fria, mesma pia
Mas não eu mesmo.
Outro em mim me via
Me tomou o lugar e modificou tudo no mesmo

Ai Deus – quão a deus
Semelhante fatídico sou eu a mim
Serafim que sou
Satanás que não encontrou enfim
Sanção máxima do poder em si
Den´de mim
Sem fim.

D-EU-S

Chove.
Uma chuva de sangue.

A chuva é a ejaculação de Deus
só dela nascem árvores, bichos, crianças


No meu ventre
vapores minúsculos de seiva vem
fertilizar-me com seiva.


(e as árvores rumo ao céu que nunca foi)
Céu é cá.

Chove uma chuva de sangue
Mas não há mortos não
Menstruação
Luz clarão. Monstro da ação.

Viva.
(lembrando de Ferreira Gullar)


Quanto vale a Amizade?
- Nada, direi.
Nada valem os amigos.

A Amizade se se a querem como comerciários
Que lha põe preços e a cobram no balcão
Não vale nada se for assim.

Não cobra amor, nem sequer carinho.
O ouvido, o xingo e espaço no quarto não tem preço.
Nem o abraço.
A mentirinha vã e os passos marcados

As brigas – ah! as brigas.
Sins, nãos e outros temas
Não cobra nada... telefonemas.

Se me derem um preço sou Inimigo
Se me avaliarem sou o Abandono
Mas se me abrirem a gaiola eu não saio de ti.

Não tenho preço, nem dono.

Somente escuta, mente, cuida e afaga
Se como namorados assim os tratares
- uma conquista.


A Amizade é eterna conquista jamais entendida mas que impercebida revela-se através da vida.

SOBRE A BELEZA DOS AMIGOS

aos meus amigos

amigo não é belo, nem feio. amigo é claro e escuro. é nulo e é puro. é inútil e é vital. sobre a beleza dos amigos não há nada a dizer só sentir. o belo da amizade é a sua inutilidade necessária como a mãe à criança. é o que há de mais lindo no mundo e no entanto de tão lindo e tão simples não vemos. a beleza do amigo. sua existência imanência transcendência. não há feiúra nos amigos, só delicadeza. por isso eu rezo aos meus amigos, percam tudo, tudo, menos a delicadeza. a delicadeza de ser sem querer sê-lo, mas já sendo sem percebe-lo, amigo.

A ROSA E O PASSARINHO



para Deise (2007)


Era uma vez uma rosa e um passarinho.
A rosa, como todas as rosas, era bonita e vinha de uma roseira rodeada por rosas também belas, que atraía a si a atenção de todos os seres, todas aos outras flores queriam ser como ela, os pássaros a admirava e as mais insensíveis pessoas, diante dela, de emocionavam. Os insetos de toda ordem, queriam buscar nela a sua doçura e o néctar, e ela era o alvo predileto dos beija-flores.
Essa rosa, da qual falo, era vermelha e há nas rosas vermelhas uma peculiaridade que as diferencia das outras rosas: as brancas, amarelas rosas. O vermelho de suas pétalas corresponde à sua sensualidade, evidencia sua beleza e também o seu temperamento. As rosas vermelhas não são calmas, tranqüilas como as rosas brancas e nem tão sorridentes e sonsas como as amarelas e, tampouco meiguinhas chatas como as rosas, mas também não são esdrúxulas e estúpidas, pelo contrário, pois, se assim fosse não seriam rosas... As rosas vermelhas são aquelas de uma beleza admirável, - afinal simbolizam a paixão e são os fetiches das apaixonadas – contém uma força temperamental inigualável, que sabem se impor quando necessário sem perder, contudo, o encanto das flores.
O passarinho, por sua vez, fazia parte do grupo dos pardais, e os pardais são comuns, como os Silvas.... Não têm a beleza das plumas das araras, a charme dos tucanos e nem sabem cantar docemente como os canários, bem-te-vis ou uirapurus. Na verdade esse era até meio desajeitado, preguiçoso até; era só encostar a para nas coisas que logo as derrubavam, aproximava-se dos outros seres e sem querer os feria com seu bico grande e suas patas pontudas, por isso tantas vezes, permanecia-se à distancia. Mas era muito inteligente e observador esse pássaro, e muito sensível também... vai ver era por essa sua tamanha sensibilidade que o fazia teimoso... quando não gostava de alguma coisa, já ficava de cara amarrada e logo xingava, brigava, mas quando gostava, se derretia todo, deixava até se fazer de bobo dos outros, pois se preocupava demais, com tudo e com todos.
Um belo dia, esses dois seres, que moravam distantes de si, se encontraram. A rosa, teve que sair de seu jardim, da companhia de suas irmãs e mãe rosas, sendo plantada dentro de um vaso que inibia sua raiz, e foi trazida para uma cidadezinha para respirar outros ares, e aprender como funciona o viver. O pássaro também foi retirado do seu bando e trazido à mesma cidadezinha para a mesma finalidade e assim se encontraram. Instantaneamente se tornaram amigos, íntimos até, vai ver por causa da saudade que sentiam dos seus.
Ah! Como era bonita a amizade desses dois...ela via nele um companheiro leal e gostava de sua sinceridade e cuidado, pois ela cuidava muito dela e gostava de faze-lo. Ele, não via nela só a ardente beleza de suas pétalas, mas a sutileza que só existem nas verdadeiras rosas, o encanto que só tem as flores e algo mais que não compreendia bem o que era, mas que provinha do intimo do ser dessa rosa.
Eles se entendiam bem, conversavam, estudavam juntos, confidenciavam segredos, lembravam com saudades dos parentes distantes, se ajudavam mutuamente, mas vezes outras, tinham um problema. Quanto mais íntimos ficavam, quanto mais se aproximavam, mais se feriam uma ao outro. Não que quisessem agredir ou machucar o outro, mas isso acontecia frequentemente quando se aproximavam. A rosa acabava ferindo o pássaro por causa de seus espinhos, que vez ou outra até lhe tirava sangue... e lágrimas. Ora, as rosas não têm culpa de terem espinhos tão afiados, na verdade até precisam deles para sua defesa. Todas as rosas têm espinhos, algumas com espinhos mais afiados e maiores, ou que se evidenciam mais que outras, por exemplo: as rosas brancas, passam tanta calmaria que nem parecem que têm espinhos.... e algumas outras espécies os espinhos são tão pequeninos que nem se enxergam, mas os da rosa vermelha são grandes e muito notados. Seus espinhos são grandes, dizem, que é por causa de uma substância que dá a tonalidade das pétalas, e também, modificando as estruturas os fazem enormes, e são mais notados por que o vermelho das pétalas nos fazem lembrar de ferimentos e de sangue, então logo notamos os espinhos delas. É inconsciente! E essa rosa era assim, ficava até preocupada porque os outros já olhavam pra ela pensando nos seus espinhos, e sem querer ela ficou até estereotipada como bruta, que fere os outros, mas eram só os incapazes de ver a sua formosura que a viam assim. E esses espinhos, por vezes feriam o pássaro, que em algumas vezes sofria em silêncio, noutras se rebelava.
E o pássaro também, por seu bico grande e pontudo e seu modo de ser tão desajeitado, feria a rosa. O seu grande bico era fatal: era abri-lo e sem querer, e tantas vezes, sem nem mesmo perceber, feria a rosa no que ela tinha de mais belo... sua pétalas. E suas patas desajeitadas, seu modo desajeitado e teimoso de ser, também machucava-a.
Não era por mal que eles se feriam, na verdade os dois sabiam que a única coisa que não queriam mesmo era machucar uma ao outro, entretanto isso era inevitável. A rosa quando machucava o pássaro ficava amuada, quase murchava e de triste sua beleza até diminuía. O pássaro quando machucava a rosa e a via triste, quase morria de desespero e remorso e ficava recriminando o seu modo de ser. Mas é muito difícil, quase impossível mudar a própria natureza. As rosas sempre tiveram e terão espinhos e os pássaros, bicos grandes e patas brutas. O que poderiam fazer era tentar controlar um pouco seus espinhos e suas patas e bicos de modo que ferissem menos, ou ficarem muito distantes!
Decidiram então controlarem...
Se fossem outros seres, não tão sensíveis como os dois, que viam no outro o próprio íntimo, teriam brigado feio e se distanciado, acabando com a tão bela amizade, mas eles se gostavam pelo que cada um tinha de seu, pelo modo que eram e pelo cuidado e atenção que cada um tinha em relação ao outro.
Todos achavam a amizade dos sois a mais bela da cidadezinha e os dois aprendiam um com o outro a serem melhores, cresciam juntos e não valeria à pena ficarem chateados e mesmo se afastarem.
Aí partiram para tentar resolver esse problema. Como poderiam fazer se não podem retirar os espinhos, nem o bico grande? Pensaram, pensaram muito juntos e perceberam que, numa amizade, num relacionamento verdadeiro é preciso muito carinho, compreensão, paciência. Até um pouco de desentendimento, pois nem sempre se está certo e o outro não deve concordar com o erro do outro, não seria um amigo, mas um cúmplice, mas mesmo não concordando deve abraça-lo, compreende-lo e ajudar.
Compreenderam que cada um e um, cada um tem o seu jeito de ser e a sua própria natureza, uns com espinhos, outros com bicos grandes e paras pontudas que ferem, mas que esses ferimentos também são importantes, pois mostram a veracidade do sentimento que nos unem. Só sabemos o quanto o outro é importante para nós quando nos magoamos em dobro vendo-o sofrer, e cem vezes mais quando fomos nós que o fizemos chorar. A alegria também faz isso de modo equivalente, e deve existir numa relação com o outro em intensidade ainda maior, mas o sofrimento é inevitável e suas marcas possibilitam aprendizados.
Compreenderam então que teriam que suportar o modo de ser do outro que o outro não conseguisse mudar, os espinhos, bicos e patas, e se não conseguissem mais suportar, se estivesse machucando muito, eles falariam claramente um com o outro, para que pudessem ao menos tentar mudar de posição, algum comportamento, o tom de voz, as palavras, os toques, os olhares e muitas outras coisas que não dá pra descrever, e assim se tornariam cada vez mais melhores amigos.
E assim eles caminham... rindo, chorando, cheios de marcas dos machucados, mas felizes, confiando um no outro e, principalmente crescendo juntos.
Resta saber, contudo se um dia conseguirão, mais próximos, nem mais sentirem os espinhos e o bico grande e patas brutas um do outro....

LÉO

Para Léo

video


Quem é essa criança
Que atormenta meu sono
E que no meu abandono
Fala mais de mim que eu mesmo?

Que criança é essa?
Que me quer pai e eu (a) (s)si(m)
Seja eu filho dela ou ela a mim
Que criança é essa?

Se eu soubesse quem é,
E se eu a levasse comigo
Eu seria talvez um amigo,
Ou um abrigo
Para meus sonhos, abandonos...

Mas se eu a levasse
Ela não me atormentaria
Pois de nada mais valeria...
Não falaria de mim
ou eu não ouviria...

(Mas se eu pudesse tê-la comigo, den`de mim...)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Thiago Luis,
Eu mesmo.
Eu quando em mim
A mim me somo
Eu sumo
No intercalço do infinito afora.
A longes passos ando
Por entre imagens e sensações do agora.

Sonso sou
Entre o sono e o sonho
“Mas entra a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?”*
- na incerteza!

Ele a mim de mim revela
Ele sou eu na imagem refletida
Fosse incógnita foto da vida
Fosse eu mesmo
Quando a mim, de mim me encontro.



* Fernando Pessoa – de Cancioneiro
minha . poesia . fica . no . chão . nasce . do . chão . como
. a . planta . esdrúxula . mas . não . sobe . paira . onde .
nasce . morre . onde . cria .

ANGÚSTIA

Sonhar... pra quê? – Esperança?
Se nossa busca quase nunca
nos dá a dádiva da chegada
pra que sonhar então?

Se nos caminhos os obstáculos
nos são sete mil vezes maiores
pra que tentar ultrapassa-los?

Para que queimar nossa chama
ascender com fogo nossa vela... derrete-la
se alguém já cabe faze-la
por nós?
Aos espelhos gritamos a dor do prazer
pra dizer que tudo vai mal...
(no entanto, silêncio!)

Pra que a coragem
sempre parece nos chegar tarde?
Por que a saudade, a maldade...

Entretanto,
as flores continuam se abrindo
o sol surgindo
e as estrelas ainda que sós, nos sorrindo.

E se estamos num canto obscuro
onde as lágrimas se nos atrevem fazer companhia
é que a luz só pode ser revivida
se procurada no escuro.

À- DEUS (ou ninguém ressuscitará ao 3° dia )

Mecha de cabelo ofuscando o papel
Correm olhos:
a-terro-risados


- N`algum lugar deve haver pombos!
Dentre gritos de silêncio
- de silêncio de pavor
Engatilha-se a metralhadora dos desejos,
Sem dó


UM BEIJO.
Metástases de guerras
Quando sê-las já não era – vão.
Lágrimas cálidas de esperanças
Oco da lembrança jaz
Imune a voz inume.

Árvores negras avermelhadas
Fazem-se ninhadas pra pombinhos brancos sós
A lua e sua noite/casca de trovão.

Cai outro
e outro
e outro.

Sobe uma luz.

Eletricamente atraída por mosquitos
Esquisitos

Siglas de impérios/misérrimos mistérios.
Jornal robusto dum sangue. Pouco.
Bang bang numa mão
Rosas de bombas e o coração na outra.

E correm homens verdes de suas balas.
Não é Cosme e Damião.
Mortífera bala de deus
À-Deus.

Ergue-se-nos outra luz. Outro cai
E mais outro, e outros, e todos.

Lembra da mãe
sorrindo ao som
A fruta no capim... do campo .
..

... DE CONCENTRAÇÃO

Honra ao mérito homicida
Nossas Senhoras suicidas nas esquinas
Omissa
forma de vida.

Disto surge a paz.

Dos estilhaços de pranto e pernas de encanto
Expulsa-se o bicho homem lindo. Criança.



A paz.
E ela chora!.

Passou por mim
e eu nem sorri.
Rodou ao ar,
fugiu de mim.
Subiu uma ladeira intransponível
e num golpe de má sorte
caiu.
Mas voltou, rodou, viveu e girou
e subiu como um jato, um jorro no ato.
Depois rodou minha cabeça
parou
pousou.
Instantâneo momento do pouso, eu mexi
Voou
parou
repousou.
Parei
pousei.
Dormi... depois voei
e não mais me vi.


O PENSAMENTO.


METÁSTASE

Poesia
São lavras de verdades
em palavras.
Metástases de pensamento
em metáforas
que são sementes...

PALAVRAS MENTEM.
OLHOS NÃO.




(Metástase:

do Gr. metástasis, mudança de lugar
s. f., figura de retórica, pela qual o orador declina de si para outrem a responsabilidade do que alega;

Med.,propagação de células neoplásicas, provenientes de uma massa tumoral (cancro), da localização original para qualquer outra parte do corpo, formando focos secundários da doença) .

Eu quero falar sobre a beleza das coisas, sobre a delicadeza de Deus quando cria, e sobre a nossa quando (re)criamos o mundo.
Eu quero falar sobre a incerteza das pessoas em suas variadas maneiras de ser, e serem tão certas.
Eu quero (des)construir as verdades que me formam para me seduzir, e sonhar...
E eternizar minha angústia na pétala do poema, na sutiliza da natureza e no encanto da língua, para eu poder respirar...
(Thiago Luis - dez/2009)